O PANTEÃO MACABRO


No ginásio eu tinha um colega chamado Lúcio Fernando ou 'Lulu' que além de um grande parceiro naqueles tempos idos, também morava a algumas quadras de minha casa e possuía um fantástico, badalado e bem caro vídeo game da época. Cada cartucho, imagem quase que de alta definição...coisa de primeiro mundo e que da  galera da área, só Lulu tinha condição de ter! A molecada toda, até os mais velhos, lotavam a casa de Lulu por causa dos games, e é claro, lá estava eu também! Tudo era às mil maravilhas naquelas tardes a não ser pelo estranhíssimo movimento que vinha do 'barracão', 'terreiro' ou templo de magia que a mãe dele possuía no mesmo terreno da casa deles. Eu por ser o melhor amigo de Lulu era o que ficava até mais tarde ali, e com isso, inevitavelmente, ouvia os gritos e gargalhadas das mais macabras que vinham daquela parte da casa. Não tinha como eu não tremer da cabeça aos pés! A forma como a mãe de Lulu se vestia quando seguia para aquelas 'sessões', suas feições, aquele cheiro de enxofre, os estranhos vultos que minha vista periférica pegava pelos cantos daquela casa...além do clima pesado que ficava no local durante aquelas 'consultas' ou sei lá o que se davam ali! Eu citei 'terreiro' por não ter como classificar aquelas instalações. Mas pelas imagens, símbolos e artigos tão macabros como: velas negras e gárgulas que se viam espalhados por aquela casa, o que a mãe de Lulu 'mexia', pelo respeito que tenho e o que sei dessas religiões, não se parecia com nada que fosse de matriz africana, candomblé, umbanda, 'umbandomblé'... parecia 'coisa de filme' tudo aquilo, era algo pavoroso e porque não dizer 'satânico mesmo'! Aquilo me assustava e talvez era para 'nos assustar mesmo' já que a mãe de Lulu não gostava muito de ver a casa dela cheia de moleques em toda aquela algazarra. Mas como ela sabia da consideração mútua que existia entre nós e por também ser conhecida da minha família, a mesma não se incomodava tanto com a minha presença. O clima era tão pesado e sombrio que quando era tarde da noite, eu sempre pedia para que alguém fosse comigo até o portão para que eu não passasse sozinho por aquele quintal tão assustador. E quando o fazia, ao passar próximo a janela, sem querer eu ouvia os sons horripilantes e as barbaridades que aqueles consulentes da mãe de Lulu pediam às 'entidades' que estariam sobre o corpo da mesma. Definitivamente aquilo não era umbanda, nem mesmo quimbanda, mas sim de 'matriz infernal', eu diria! E foi naquele dia que me aconteceu algo inacreditável de assustador. Brincávamos de bola naquele quintal, eu, Lulu e mais uma prima linda do mesmo, que eu não conhecia e a qual me apaixonei à primeira vista. Jogávamos um a bola para o outro sem vermos o tempo passar. Era incrível como eles não se espantavam com os sons que vinham daquele templo, mas a minha rápida paixão pela priminha de Lulu, logo me distraiu. E foi quando a bola acabou caindo dentro do que seria uma espécie de galpão onde a mãe de Lulu guardava algumas estatuetas e outros símbolos de seus 'deuses'. Alguém tinha que ir até lá, rolou um 'joguinho de empurra' e logo, eu fora desafiado a ir. E para 'fazer presença' ou me mostrar corajoso para aquela gatinha, tive que 'engolir meu medo' e me prontificar a ir até aquele galpão. E quando chego lá, tremendo da cabeça aos pés, gaguejando 'peço licença' a quem ou a 'o que' estivesse ali e procuro pelo interruptor, que ao encontrar e acender a luz faz com que eu me veja diante de um panteão formado por imagens das mais assustadoras, que repito: não pertencia a nenhuma religião conhecida e digna de todo o respeito... eram imagens em gesso, 'carrancudas', em vários tamanhos, até 'real', 'antropomorfas', com chifres, presas, patas, rabos, além de adagas, espadas medievais, pentagramas, cruzes ambos invertidos e cabeças de bode espalhados pela parede. E foi quando aquela lâmpada estranhamente começou a piscar, que para minha terrível surpresa tais estátuas começaram a se 'mexer sozinhas' e até mover seus olhos na minha direção. Rapidamente fugi dali 'não vendo mais nada em minha frente' e ignorando o chamado de Lulu e sua linda prima. Ninguém acreditou quando contei, mas nunca mais voltei àquela casa! Depois, soube que a mãe de Lulu adoeceu e faleceu de uma doença misteriosa e que o mesmo ao crescer tentou continuar a frente daquela seita, mas depois acabou fechando o templo e se mudando.

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